De amargo basta o café

Hoje eu entrei num desses cafés caros que existem nessa avenida metida a besta, e pedi uma fatia de bolo de laranja, que curiosamente é servida com uma dose generosa de doce de leite.

Não ia pedir nada pra beber, mas me pareceu obrigação. Pedi um café expresso. De onde veio esse nome de batismo? Café expresso. Por ser rápido e sem frescura? Por ser apenas um botão pressionado na máquina? É por adivinhar nosso relógio atrasado e ter tempo apenas de virar um gole? Ou por ser tudo isso, mas também forte, amargo, intenso, por ser capaz de provocar uma careta com poucos ml e balançar as entranhas de quem o ingere? O nome correto seria café expressivo.

O bolo de laranja por si só era doce o suficiente, mas fiz uso do doce de leite.

Na pequena xícara de porcelana branca, o café esfriava. O sabor doce ainda fazia festa na minha boca enquanto eu olhava para o café escuro, amargo, morno. Paguei por ele, mas não gosto. Não vejo graça além do cheiro.

Nada de amargo me atrai nessa vida.

Derrubei uma colherzinha de açúcar nele, mexi com movimentos circulares, formando um leve redemoinho no líquido. Minha forma de dizer que também sou expressiva.

Virei o café num gole demorado. Feito. Todo dia um amargor. Todo dia uma oportunidade de adoçar. É assim que eu balanço minha vida por aí.

O café e a paixão

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O cheiro do café chega quente aos pulmões, e esse cheiro quente que se transforma em calor, me faz lembrar de uma manhã de sexta-feira num quarto que ficava no 7º andar. Um quarto com janelas grandes, onde a decoração era feita por roupas espalhadas pelo chão, e das vidraças era possível ver um pedaço do céu por entre outros prédios.
O cheiro de café às vezes me transporta para um lugar no passado que me aqueceu. Foi um beijo, um abraço, um café e o pão de queijo, tudo igualmente quente. O café que me leva de volta para a Alameda Lorena é o café que vai um dia me levar para outro lugar, e só espero que seja quente, espero que tenha calor.