– o amor numa quarta-feira ruim

O amor é um mosquito que pica sua coxa sem que você perceba. Tira seu sangue, e se manda, procurando outra coxa pra picar.

Ele deixa uma sensação ardida e irritante, que vai te fazer querer arrancar com as mãos porque é algo que você não aguenta mais sentir.

O amor…
O amor coça.

Um colo de aquarela

Sou uma pintura complexa
Vem e tira a cor da minha boca
Contorna meu corpo e me faz tua musa
Não gaste palavras, use o tato
Apague a luz
Esqueça o tempo e o espaço
Não jogue, se jogue, me joga na tela
Me tira o ar e pinta o céu de azul
Me toca com delicadeza
Brinca de aquarela no meu colo
Isso tudo é um rabisco
De um dia que se vai
Assim que o sol chegar

A água do céu

Foi um dia difícil.
Daqueles dias que transformam a alma em poeirinha.
E eu só queria minha casa.
Tudo tão difícil, por que tudo tem que ser tão difícil? O amor, a vida, o trabalho, o peso que se carrega nos ombros e na cintura…
E eu fui pra casa.
Caiu um temporal.
Eu que quase não ando com guarda-chuva fui banhada pela água do céu.
E essa chuva que tocou minha pele numa noite quente me fez lembrar de uma coisa, tudo pode ser muito difícil, muito pesado, mas nada seria tão bom se tudo isso não existisse. É o peso que deixa tudo mais leve? Eu acho que sim.
Enquanto minha pele ia sendo molhada pela chuva, pude sentir o cheirinho doce que exalava de mim, e eu sou assim, mesmo quando esqueço, mesmo quando tudo me faz acreditar no contrário, eu ainda sou doce, e esses momentos difíceis e amargos

vão e vêm, e eu sempre serei assim.

Dança Comigo

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No quarto toca Lips On You
Minhas pernas descobertas dançam suavemente
Meu cheiro é de jacarandá e pimenta rosa
Aos poucos, lentamente, eu flutuo e meus pensamentos voam pra longe levando apenas a música comigo
Eu posso sentir o cheiro amadeirado, o cheiro da pimenta verde, os cheiros que provocam uma reação química, e que se misturam aos meus, e nesse instante você e eu somos únicos no mundo, não há nada igual
As pernas entrelaçadas tornam dois em um só, e essa dança que era minha, agora é nossa e de mais ninguém, e será assim até que a música acabe, e ela vai acabar
Então vem comigo, vem dançar

Você está aqui

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O que mais aperta no meu peito são as coisas que mais me irritam em você.

É a sua mania de deixar a torneira da cozinha sempre pingando, o som da gota de água batendo na pia me enlouquece e você sabe disso. É esse seu descaso declarado ao deixar a porta do meu quarto aberta sempre que você entra aqui, e essa mania chata de pegar minhas chaves sempre que você não encontra as suas, poxa, é só pendurar no mesmo lugar.

E os meus chinelos que você vive pegando, eu nunca acho meus chinelos. Nós duas calçamos 35.

Tudo isso me tira do sério. E eu respiro fundo toda vez.

Mas me dói o coração toda vez que eu penso que um dia eu não vou precisar levantar pra fechar a torneira direito, já que não vai ter nenhuma gota pingando na pia. E me dói saber que um dia eu vou fechar a porta do meu quarto e ela vai ficar fechada até eu abrir de novo. Me dói mais ainda saber que minhas chaves continuarão no mesmo lugar que eu deixar, e que meus chinelos dormirão e acordarão no pé da minha cama.

Eu acho que é isso que mais vai doer, essas manias chatas, essas coisas que só você faz, essas coisas que me tiram do sério mas que reafirmam o tempo todo que você está aqui.

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Os desenhos nas minhas coxas formam caminhos que se cruzam, caminhos que terminam pra começar de novo.
Esses desenhos me lembram que tenho um coração que já foi partido algumas vezes, um coração cheio de desenhos que ninguém vê. Os remendos.
O que carrego nas coxas que sustentam meu tronco, as coxas que balançam num movimento convicto de prazer e força, são as marcas de dias que machucaram, mas além disso elas me lembram que apesar de todos os estilhaços, ainda estou inteira. E é por isso que amo minhas marcas.

– Estrias sem vergonha

Eletrizando

existe alguma força que me leva pra perto de você sempre que as luzes do meu quarto se apagam

essa força me puxa pra baixo do lençol onde eu sinto seu cheiro

essa força toma conta dos meus braços, faz as minhas pernas pesarem uma tonelada, percorre minhas veias eletrizando cada centímetro do meu corpo, minha mandíbula trava, minhas mãos agarram um espaço vazio, e com uma respiração pesada essa força me deixa, me trazendo de volta pro quarto vazio, abandonando todo e qualquer vestígio seu

eu sei que amanhã ao apagar as luzes, essa força vai voltar me levando pro lugar onde sinto seu cheiro e onde todos os meus sentidos se confundem até eu conseguir voltar mais uma vez, até tudo isso acabar

Erva doce

Você é como um chá de erva doce que eu gosto tanto
É sempre melhor a noite, precisa de um toque de doçura, chega quente nos meus lábios, aquece meu corpo, me tranquiliza, me faz dormir melhor

Além tempestade

Não se deixe levar, era o que pensava.

E você se deixou levar pelo meu sorriso, pelas minhas bochechas que coram a cada olhar seu.
Você ligou meus pontos e deduziu que havia doçura.
Eu tenho história, e por trás do meu sorriso há uma coleção de dias tempestuosos, dias que insistem em doer, e mesmo assim eu sorrio, e você se deixou levar.
Viu doçura em mim.
E eu me deixei levar por você, pois eu sei que você viu a tempestade também, e ainda assim é doce.
Eu também pude ver doçura em você.

Meu mundo

As pontas dos dedos na minha nuca desenham um caminho que percorre meu pescoço, deixando um rastro quente que vai descendo, levando até meu colo onde os dedos repousam num lugar onde o coração bate acelerado, desejando cada vez mais. E minhas mãos encontram estes dedos e os abraçam como um polvo feroz faria agarrando sua presa. Te mostro outro caminho, abrindo espaço entre meus seios, descendo cada vez mais onde eu te mostro um lugar onde apenas eu moro, onde todo o desejo do mundo se encontra e pede que este lugar, este mundo seja apenas seu por alguns instantes, aqueles instantes onde eu estarei inteiramente entregue ao seu toque, e que deixarei de ser rainha pra me tornar uma súdita, nesse momento meu mundo todo está em suas mãos.

No meu peito

Eu te odeio porque você me deixa com uma sensação ardida no peito. Do início ao fim.
Meu peito ardeu quando te conheci, e ardeu ainda mais quando você eu fomos um só.
Agora arde como uma dor que queima de dentro pra fora e eu só posso dizer que te odeio, odeio por te querer tanto.

Uma Julieta Pós Moderna

Ela correu por uma rua deserta às duas horas da manhã, quebrou o salto, arrancou os sapatos e quase os jogou longe, mas era um par de Loboutin.
A maquiagem borrada de alguém que havia chorado como uma atriz vivendo um drama, cabelos lisos numa perfeição simbólica levados pelo vento, trajando um vestido branco, agora manchado por um vinho barato que ela nem bebeu.
Ela flutuava naquele belo vestido condenado pela mancha de vinho.
Correu como quem foge de uma cena de horror, correu como quem busca salvação.
Atravessou a rua e sentou numa calçada, onde jovens bêbados podiam jurar que ela era apenas uma visão gerada pela última dose de tequila.
Era madrugada, a boemia incomodava, toda aquela felicidade não condizia com o espírito quebrantado de uma moça triste num belo vestido.

Cansou de correr, assim como cansou de esperar.
Numa noite decisiva, onde tudo que se espera são as respostas certas, ela ouviu o que não queria.
Reagiu como nunca achou que precisasse reagir.
Tomou da mágoa a mesma dose do amor, se envenenou.
Cobrou dele aquilo que somente ela daria, e não ganhou.
Fez de tudo um sacrifício, e sacrificou por ela e mais ninguém.
Seu amor era como o vestido que usava, manchado, condenado.
Não queria mais correr, nem por fuga, nem por salvação.
Ela era uma Julieta pós moderna à espera de um Romeu que não viria mais ao seu encontro.

Uma borboleta

Uma borboleta invadiu meu quarto.

Entrou pela janela durante o dia. Espalhou cor sobre a minha cama, sobrevoou o guarda-roupas, se exibiu com a certeza de ser linda.
Ela foi embora por onde entrou.
Não deixou rastros.
O quarto permanecia o mesmo.
O mesmo que era antes de receber a linda e colorida borboleta.
Mas eu sabia, eu vi. Ali entrou uma borboleta. E ela voou pra mim, ou talvez pra ela mesma, mas eu pude ver.
E o belo só é belo quando alguem vê.
Volte um dia, borboleta.
Me visite.
Me traga cor, que às vezes os dias aqui são tão cinzas sem você.

Morangos Gigantes

Numa conversa de pura ostentação bem humorada, um cara do meu trabalho falou de morangos grandes que são quase do tamanho de uma maçã, morangos com champagne, morangos gigantes.

Lembrei de uma cesta de frutas com um maracujá cheiroso, um pêssego e alguma outra fruta não menos importante.
O cheiro do maracujá era tão agradável.
O dono desta cesta de frutas amava maracujá, comia de colher, sem açúcar. Aproveitava da fruta todo o sabor natural. Eu gostava e ainda gosto só do suco. E gosto do cheiro do maracujá.
Lembro das coisas que ele amava daqui além do maracujá. O samba, a alegria, a paixão, as músicas da Vanessa da Matta, os bloquinhos de carnaval e as ruas de Salvador.
Lembro quando ele me disse que aqui eu não teria morangos gigantes.
Me conta dos morangos eu dizia. E ele juntava as mãos e fazia uma tigelinha imaginária levando até a boca “são tão grandes que você precisa comer assim, e são tão gostosos os morangos gigantes”
E eu ria, ele ria, numa copa perfumada pelo maracujá.
E foi ali na mesma copa que eu ouvi B.B. King e Eric Clapton.
Dali a gente via uma bandeira do Brasil no topo de algum prédio, balançando pra lá e pra cá, uma bandeira que dança. Linda a bandeira desse país ele dizia e eu concordava com orgulho.
O dono da cesta de frutas foi embora e eu achei que não viria os morangos gigantes tão cedo. Os morangos únicos e especiais. E ele não sentiria o cheiro do maracujá tão cedo. Os morangos eram dele. A alegria era minha.
Uma pena, hoje descobri que com alguns reais posso comprar morangos gigantes na feira do Villa Lobos.

Frisante

Comprei uma garrafa de frisante e um pacotinho daquelas minhoquinhas ácidas e coloridas.
O frisante está na promessa de ser ingerido assim que botar os pés em casa, já as minhoquinhas estão encontrando seu fim neste momento…
Eu como de nervoso, e talvez beba pelo mesmo motivo, pelo menos por hoje.
Detesto perder as palavras, detesto quando as sequestro de vez em quando e acabo soltando justamente as palavras erradas.
– Então, sabe o que é? Eu disse sim mas meu coração gritava não, eu parecia um “claro” em itálico quando eu era 100% “jamais” em negrito. – Quem vai acreditar?
As minhoquinhas estão agora ardendo na minha língua, isso pode ser útil… Quem sabe minha garganta comece a pegar fogo e eu perca de vez as cordas vocais que só me trapaceiam.
Preciso do meu frisante, uma bebida fraca pra me sedar aos poucos, me fazer ficar calada.

As perguntas

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Procurei no horóscopo de hoje, nos erros grotescos da previsão do tempo que não previu nada, procurei na memória sobre o sonho que tive. Nenhum sonho, não que eu lembre.
Procurei nas mensagens ignoradas… foram todas respondidas.
Procurei em algum lugar no passado que eu ainda não esqueci, algum lugar inabitável.
Tentei adivinhar o futuro em busca de algo tão ilusório quanto a previsão do tempo.
Me resta o espelho. A imagem refletida diz que há algo errado, só não me dá as respostas.
Sou um problema refletido, há algo que dói, algo que não se encaixa.
O rosto entrega o cansaço, o espelho me diz que talvez eu nunca encontre o que procuro, e mesmo assim vou procurar.
E talvez seja por isso que vasculho sonhos, vejo o horóscopo, leio mensagens, e escolho roupas depois de ver a previsão do tempo, tudo isso faz parte de dormir, acordar, viver, sentir. Mesmo que um dia, ou dois, ou cinco sejam tão ruins que me façam crer que não existem respostas, apenas perguntas e perguntas e perguntas.

Tempo

Queria poder parar o tempo, congelar tudo ao meu redor.

Queria retirar de cena toda a dor, toda a mágoa, queria colocar cor em tudo que é sem graça e triste.
Se eu pudesse eu pararia o tempo e mexeria nos ponteiros, escolheria o momento certo, o dia perfeito que eu deixei passar e recomeçaria.
E passaria.
Passaria reto pelas escolhas erradas, acertaria mais de uma vez.
Eu queria poder parar o tempo pra ter mais tempo pra pensar e descobrir o que fazer com o tempo que insiste em passar.