móveis de madeira

Na cadeira de madeira
Onde ele costumava se sentar
No canto onde a luz do sol batia
E ele podia descansar
Naquele canto não tem mais cadeira
Naquele canto nem a luz do sol consegue entrar
Naquele canto agora quem descansa são meus olhos
Pra lembrar de um tempo que não existe mais

Os fins

O fim de tarde alaranjado, o sol que a gente não consegue ver atrás de prédios de vidro, aquela camada mais escura dividindo o céu, essa camada é de uma cor que até seria bonita se não fosse poluição, tem gente que não sabe que é poluição. Só sabe que é bonito.
Beleza.
Como aquele rapaz de cabelos desgrenhados e sorriso bonito, ele ri sozinho, eu acho de verdade que o mundo é de quem sabe rir sozinho, é que a gente tem vivido muito sozinho agora, e se consegue rir, você ganhou o mundo, ou ganhou do mundo. Eu não sei o nome daquele rapaz, tem gente que sabe. Tem tanta coisa que eu não sei.
Só sei que o sorriso dele, e o céu alaranjado deixaram o fim dessa tarde tão bonito. Os fins, quem diria, podem ser bonitos.

Minhas paixões

Se estou apaixonada?

Meu querido, não houve sequer um dia nessa vida em que não andei apaixonada, tenha sido pela lua, pela música, pelas flores, por um sorriso, pelo sol ou um cachorro de rua.

Nem só de amores vivem as paixões.

Era pra ser nunca mais

Se Nunca Mais fosse uma unidade de tempo, ele seria o que age com mais pressa.

A gente diz nunca mais, e de repente ele tá batendo na porta com botas pesadas.
É o pra sempre que não chega.

Na verdade, esse é o primeiro a ir embora, o pra sempre carrega a liberdade do mundo, e não tem medo de botas.

A taça, o toque, o vinho, o choque

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Você tem gosto de vinho
Eu gosto de vinho
Seu cheiro me lembra banho quente
E esse seu jeito de me sentir com os olhos
Me despe a alma
E eu fico toda nua

Você descarrega a mesma eletricidade
Que mora em mim
Causamos um curto circuito
Somos um completo desastre
Uma explosão

O gosto de vinho na boca
O seu nome na ponta da língua
O toque, o choque, a explosão
Que perigo nós somos
E eu que deveria ter medo
Só sei te convidar pra entrar
Você vem?

O que será de nós

Não sei o que fazer.

Você também não sabe.

Mas rimos juntos e falamos de poesia.
Observamos a lua no céu, eu da minha janela, você da sua.

Eu não sei o que vai acontecer.

Você também não sabe.

Mas ouvimos os discos de Chico Buarque e Gilberto Gil.

Acreditamos na força do amor, eu com meu coração ferido, e você com seu coração cansado.

Não sei o que será de nós.

Você também não sabe.

Mas continuamos mesmo assim.

Você me diz, escreva. Eu te peço, leia.

Fazemos da arte nosso refúgio.

Eu sinto medo e sei que você também sente.
Mas eu não te conto isso, nem você me conta.
E você me faz bem dizendo que vai ficar tudo bem, porque mesmo com medo, eu sei que você acredita em mim, e eu acredito em você também.

Sim

Dizem que quando a gente começa a dizer sim as coisas melhoram. A Yoko disse isso.
Vi a exposição dela no Tomie Ohtake e tocou meu coração.
Lembro que subi uma escada e no teto tinha uma lupa pendurada.
De saia de bolinhas, calçando um par de All Star brancos, no topo da escada peguei a lupa e li aquela palavra diminuta que a olho nu parecia um inseto morto no teto.
A lupa me fez enxergar o sim. Era um SIM.
Meu sim é assim. Meu sim tem medo, fala baixinho pra ser confundido com um não, com um talvez, fica a sorte de quem ouve. Meu sim que eu guardo e solto apenas quando tô muito confiante, muito alegre, quando já bebi um gim talvez.
Meu sim vem todo machucado e cheio de poréns.

Dizer sim não é fácil. É bom. Mas não é fácil.
O sim me tira da cama de manhã, me faz pegar um ônibus lotado todos os dias, o sim me faz engolir o orgulho e seguir em frente apesar de tudo, também me faz encontrar amigos numa terça-feira chuvosa, o sim fez com que eu me apaixonasse algumas vezes, o sim também partiu meu coração.
O sim já me fez mudar o corte de cabelo e me impor na frente de pessoas tão duras, e eu tão pequena, cresci. O sim me assusta tanto porque ele não é garantia de nada.
Ele só me diz que eu vou viver.
Meu não me deixa na cama. É isso que ele faz.
O sim pode até me machucar, mas eu acho que é o que a Yoko disse, o sim melhora a minha vida.

E a passos curtos, um dia não vou precisar de lupa, um dia meu sim vai ser tão grande que ele vai falar por mim.

E se eu te contar

Queria ter te contado que aquela noite eu passei batom só pra te ver. Eu nunca passo batom.
Queria ter te contado que saí no meio da chuva, molhei os ombros e a barra da calça, mesmo assim, meu coração batia ainda mais forte porque eu só queria te ver.
Naquela noite, montei uma playlist que eu queria ter te mostrado, eram todas as músicas que me lembravam você.
Queria ter visto meu rosto quando te vi me esperando, tenho certeza que ele estava iluminado. Foi tão bom te ver. Quase não te chamei, só pra poder ver mais um pouco daquele olhar me procurando em meio a multidão.

E o beijo que você deu na minha mão… o tempo parou só pra fazer um estrago no meu coração.

Queria que você soubesse que eu passaria batom de novo, sairia na chuva e molharia os ombros e a barra da calça, montaria outra playlist com Marisa Monte, Caetano, Chico Buarque, Maria Gadu e Marcelo Jeneci, mas desta vez te mostraria. Queria que você soubesse que eu iria a qualquer lugar, só pra te encontrar de novo e poder te ver mais uma vez, em pé em alguma calçada, sereno, mesmo depois de eu ter atrasado 15 minutos.

Queria te contar que era mentira quando eu disse não lembrar daquela bobagem que eu falei, eu lembro de tudo, não poderia esquecer. O que bagunça tudo é esse medo de ver você indo embora, justo agora que eu já arrumei um cantinho pra você aqui. Será que se eu não contar, você vai saber mesmo assim?

Meus amigos

Há tantas canções que falam de amigos.
Eu quero ter um milhão de amigos. meu amigo Charlie Brown, meu caro amigo, me perdoe se não lhe faço uma visita.
Os amigos. Se não fossem eles, o que seria de nós?
Eles conhecem nossos defeitos, nossas histórias, nossos piores dias e os melhores dias. Nos viram bêbados e chorosos, nos viram amando e partindo, nos abraçaram e nos xingaram porque às vezes é preciso. Esses meus amigos que conhecem cada canto escuro que me forma e mesmo assim conseguem ver tanta luz em mim.
Me chamam de incrível, incríveis são eles.
Desde a vida toda. Um amigo. Um que se se foi, um que existe há duas décadas, um que chegou agora. Meus amigos.
Conversando com minha paixãozinha não correspondida do primário, ele me contou que minha melhor amiga pediu pra ele me dizer oi na escada do colégio. Eu ganhei um oi, e aquele deve ter sido o dia mais feliz da minha vida tão recente com tantos melhores dias pela frente.
Os amigos.
Amigos que atendem.o telefone de madrugada.
Que te deixam em silêncio tomando um sorvete porque você só precisa de um sorvete.
Amigos pra todas as horas.
O que seria de mim sem vocês?
Na certa não me sentiria incrível, pois de que adianta ter luz se não há ninguém pra ver?

Podemos ser amigos

Depois de um tempo entendi que as melhores relações são aquelas onde você olha pra pessoa e acima de tudo vê um amigo.
Ter em quem confiar, uma pessoa com quem você pode conversar sobre tudo e perder as horas, atravessar a madrugada e se perder só quando o sono chegar.
É olhar pro celular e já saber pra quem vai ligar, seja qual for a situação, o primeiro nome que vem na minha cabeça.
O silêncio confortável no abraço que acolhe. o dia bom e o dia ruim, o sossego, o abrigo.
É quando além de tudo eu posso dizer, sim, somos amigos.

Aquela piada ruim

Vou lembrar de você toda vez que ouvir Closing Time e sempre que o bloquinho de Carnaval atravessar a Avenida Paulista.

Vou lembrar de você quando tomar um bom vinho e quando alguém tocar ukulele.

E você vai estar nos melhores momentos, num dia de sol no parque, no café expresso e no sorvete de creme, nas histórias sobre a África e na voz de alguém que jura que só quer me fazer feliz.

Provavelmente vai ser você que eu vou ver no porta-malas de um carro em qualquer filme do Tarantino, e nos cartazes de Procurado em alguma cidade pequena, vou lembrar de você quando tirar a nata do leite que eu jogo na pia, e toda vez que meu saldo no banco ficar negativo.

Vou lembrar de você quando o ônibus frear bruscamente me fazendo cair no meio do corredor enquanto eu vejo um absorvente pular da minha bolsa me causando o maior constrangimento da vida comum.

Vou lembrar de você quando o meu lugar no cinema for o pior ao lado de alguém que não para de falar e quando a caixa de leite na geladeira estiver completamente vazia.

E especialmente vou lembrar de você quando alguém contar uma piada promissora com aquele final em que ninguém ri, pois você é meio assim, uma piada ruim.

Das histórias que não conto

Que medo de ser como os livros que eu tenho na minha estante

Esses livros com dedicatórias cheias de afeto, livros com mais histórias do que as propriamente escritas em suas páginas. Páginas folheadas e devoradas por mim

Capítulos repletos de promessas que eu mesma fiz e não cumpri

As histórias que poderiam ter encontrado outros olhos, outras mãos, outros sorrisos e emoções, estas histórias se fecharam, voltaram para a minha estante

As histórias que eu sei de cor e que levam um pouco de mim, guardadas, escondidas, seguras, à salvo dentro de livros enfileirados numa estante amarela

Minha vida, um pouquinho dela, uma dedicatória emocionada, ninguém pra ler. Ninguém além de mim

É só coincidência

Existe alguma força no universo que age de forma estranha.

Lembra quando você procurava muito aquela camiseta, revirava o guarda-roupa, olhava embaixo da cama, mas ela só aparecia quando era a sua mãe quem procurava? Puf, ela abria a gaveta e tava lá. Quase como mágica.
Essa é a mesma força que faz um amigo que você não via há anos aparecer do nada no mesmo bar que você enquanto você contava sobre um dia de cachaça envolvendo vocês dois, “não morre mais!”.

Essa força também se manifestava quando era comum ouvir rádio FM. A gente ligava o rádio no mesmo instante em que a nossa música favorita estava tocando. As coincidências sonoras eram as que eu mais gostava.
Eu achava que também seria ela que iria nos colocar no mesmo vagão do trem. Eu, você e um bando de desconhecidos dividindo o mesmo espaço, eu pisaria no seu pé, sou desastrada. Ou talvez, atravessaríamos na mesma faixa de pedestres, sim, eu indo pra direita e você pra esquerda, te olharia com a certeza de já ter te visto antes, pelo menos deixaria essa impressão em você também.

Essa mesma força que une e separa, essa força que nos faz chamar os laços da vida de coincidências, está esperando o momento certo, dizem.

Dizem que quando a gente deixa de acreditar nela, quando já esquecemos do poder que ela tem sobre a vida, é quando ela mais gosta de surgir.
E é por isso que a sua mãe encontrava o que você procurava, é por isso que seu amigo surge do nada e a sua música favorita ainda vai tocar se você ligar a Rádio FM.
E a verdade é que eu estou escrevendo isso por que hoje, especialmente hoje, já não acredito mais.
Então, querida força do universo. Tens um desafio. Eu não acredito mais em você.

Uma pausa

Algumas vezes me pego pensando que a vida meio que joga cartas. E assim, por pura sorte, algumas pessoas recebem as boas cartas, as outras possuem cartas ruins. Os que estão com cartas ruins ou mostram na cara, sem ter o dom de disfarçar, e há os que aprendem a blefar.
Eu sei que minhas cartas não são tão boas. Meu jeito de jogar foi levar com humor.
Mas há dias e dias.
Não é sempre que vou rir. Rir também cansa os músculos faciais.
Às vezes me dou ao luxo de abaixar as mãos. Deixar as cartas na mesa. Ir pro meu quarto. Colocar uma música gostosinha pra ouvir, tomar meu chá de capim cidreira, e deixar o tempo passar.
Tem dias que eu simplesmente não estou.
Não adianta chamar.
Minhas cartas já não são tão boas, o melhor que eu posso fazer por mim é respeitar meu tempo. E eu volto. Sempre volto.