O plano é não planejar

Pode ser que ter dado errado tenha sido o melhor que poderia ter acontecido.

Às vezes acontece da gente planejar tudo, organizar as coisas na cabeça, montar uma lista com tudo que a gente quer, e aí, de repente, tudo muda. Sua cabeça vira uma bagunça, sua lista agora é inútil.

Se enxergar no meio do caos, sem planos, sem nem imaginar qual será o próximo passo é assustador. Eu senti isso.

E fiquei assim, assustada. Até que eu notei que o estar no controle é uma ilusão. As coisas continuarão acontecendo independentemente da minha vontade.

E o que eu fiz? Dancei conforme a música. Disse mais SIM. Só disse não quando queria dizer não. Fiz e pensei depois, por que antes eu não fazia e ficava pensando depois, era bem pior. Troquei o nome da lista de Planos para Sonhos. E pra minha surpresa, alguns já se tornaram realidade,e minha intuição diz que muitos outros sonhos se tornarão realidade também.

Só sei que sou mais feliz assim, deixando a vida acontecer, aproveitando cada instante, tendo histórias pra contar, histórias que nunca foram escritas, simplesmente aconteceram.

Free Hugs

Ninguém sabe, mas me tornei uma estudiosa, uma cientista, o objeto da minha pesquisa se chama Abraço. Sim. Decidi experimentar todo tipo de abraço possível, estar nele por inteira pelo tempo que durar.

Faço uma imersão carismática em todo tipo de abraço.
Quero descobrir as nuances, os cheiros, as intenções, a intensidade do sentimento ou ausência completa dele.
Primeiramente, entendi que cada pessoa, além da sua própria digital, possui também um abraço único.
Dia desses, na estação Brigadeiro do Metrô, recebi pela segunda vez o abraço mais completo que existe. É aquele bem apertado, mas que não sufoca, é rápido, mas parece que vai durar uma vida. Normalmente é um abraço de despedida. Parece dizer: Tô indo embora, deixa eu levar um pedaço seu, e você leva um meu só pra saudade ser menor.
E esse tipo de abraço sempre me faz pensar que talvez eu nunca mais volte a ver a pessoa.
Tem o abraço que te envolve por completo, ainda mais ser você for uma pessoa tão baixinha quanto eu, o abraçador se torna um casulo, o abraçado se sente tão protegido, tão em paz que nada mais importa e é nesse momento que ele pode por pra fora tudo que estava guardado, normalmente quem abraça assim sabe que seu fardo está pesado e que 5 minutos nos braços de alguém, e algumas lágrimas pra desafogar, podem mudar seu dia. E muda mesmo. Recomendo.
O abraço de criança que te agarra pelas pernas. De cima a gente tem a impressão de ver um duende muito fofo cheio de energia capaz de transformar qualquer bobagem numa grande descoberta. É o abraço que faz a gente descer das alturas do mundo adulto, dobrar os joelhos, e olhar nos olhos um ser coberto de energia vital, aquela vitalidade que um dia a gente também teve. É troca de afeto da mais pura forma.
O abraço da energia canalizada. Um dos meus preferidos. Acontece em momentos de grande emoção. Por exemplo, final de um show de uma banda incrível, como foi com Pearl Jam. Pessoas DESCONHECIDAS (!!!!) se abraçando (!!!!). A emoção estava no talo, todo mundo queria falar de amor. A melhor forma de falar de amor? Abraçar.

Tem o abraço de pernas entre lençóis bagunçados, com música baixinha, duas pessoas em silêncio, é o tipo de abraço que faz tudo valer a pena. É a ilusão de existir apenas duas pessoas no mundo, aquelas duas dividindo os lençóis, a cama, o sexo, o amor.

E tem abraço ruim. Você vai reconhecer. Ele vem acompanhado de alguns tapinhas nas costas. Esses tapinhas que traduzindo para o português seria mais ou menos assim:
Então, tá. É isso aí, né?
Ou
A gente vai se falando então
Ou
Se cuida
Ou
A gente marca
É o abraço blasé
Credo.
E tem abraço eufórico, cheio de saudade, de desejo, de amor. Tem abraço que eleva a gente do chão, abraço que faz a gente voar. O abraço dos apaixonados e dos amigos que voltaram de longe.

Tem o abraço da mãe, que mesmo sem dizer, ou até dizendo, ele serve pra que você saiba que todo amor do mundo é seu e é ela quem te dá.

Tem abraço que promete uma noite inteira de aventura.
Tem abraço que serve pra te lembrar que você não está sozinha e que nunca estará.
Só sei que abraço cura, mesmo aquele blasé… Abraço é troca de energia, é se doar por alguns instantes. É tornar possível que dois sejam apenas um só, e isso é pura magia.
Continuo com minha pesquisa. Então, pode me abraçar, que eu já virei quase uma especialista.

Ego

Toda vez que escrevo é pra tirar um pouco de mim pra dar pra alguém, é pra morar em outra pessoa nem que seja só um pouquinho.
É pra plantar no outro uma semente das minhas emoções.
No final é tudo sobre mim, até quando escrevo sobre alguém.
E quando falo de amor, falo sobre como amo.
E quando falo de sofrimento, falo como sofro.
Um mundo inteiro girando ao meu redor, um conhecimento limitado e completamente egocêntrico de todas as sensações humanas aplicadas apenas sobre um ser humano.
E talvez, quando digo que amo, talvez eu ame a pessoa que eu sou ao lado de alguém
E quando digo que odeio, talvez seja assim também, odeio quem sou ao lado deste outro alguém
E pode ser que me despedir de alguém seja assim tão difícil, porque de certa forma estou dando adeus a uma parte de mim.
E assim descubro que talvez eu seja isso, um EU, EU e EU, e onde existe apenas eu onde haverá um nós?

Estrelas

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Essa noite não vou dormir.

Vou sentar no meu telhado, jogar uma manta no colo, vou fechar os olhos e ouvir o som da noite.

Quero ver as estrelas, vou contar todas que puder, vou jurar que algumas delas são planetas onde um dia eu possa morar.

Vou me imaginar sentada na lua, pintando a terra numa tela pequena. As coisas da noite não são coisas do dia. Nem as criaturas, nem os cheiros e os sons. E se eu tiver sorte, nem as dores.

Por isso, nesta noite não vou dormir. Vou deixar o tempo passar e com ele vou fluir, aqui, no telhado com uma manta, onde as estrelas brilham só pra mim, no silêncio que me diz que as coisas da noite não são coisas do dia, decido acreditar que quando a noite se for, e finalmente dormir, as estrelas continuarão brilhando dentro de mim.

Do que sinto

Sinto falta de andar de mãos dadas

De deitar a cabeça no peito

De fechar os olhos enquanto o mundo se agita

Sinto falta do cheiro de menta

Dos cabelos curtos entre meus dedos

Do hálito fresco e dos olhos nos meus olhos

Como dizia Mário Quintana

Ódio dói bastante. Ofensa dói bastante. Tudo que é ruim dói mais, tudo que é negativo dói mais. 

E só dói porque essas coisas gritam, berram, usam um auto falante terrível. 

E o amor é diferente. É silencioso e acalentador.

Como pede Mário Quintana, o amor ama baixinho, deixa em paz os passarinhos, o amor é o refúgio que a gente encontra pra se esconder de tudo que grita e escurece a alma. Não dói, e se dói, não é amor.