Sorte minha, sorte sua

Hoje de manhã o sol brilhava tão forte que forçava uma expressão feia no rosto de todos que ousassem sair na rua. Ousei, pois tinha que trabalhar. Logo no ônibus, ao girar a catraca, minha moeda da sorte caiu da carteira, um tilintar dourado que também brilhava, mas desta vez, não no céu, e sim no chão. Com algum esforço me abaixei para fazer o resgate da moeda que descansava aos pés de uma moça, a quem pude reparar, me olhava com um ar de quem julga “tudo isso por uma moeda?”, e com meus olhos de quem se defende, respondi mentalmente, “tudo isso por uma moeda da sorte”.

Não fui eu quem a nomeou assim. Não costumo atribuir sorte à objetos, mas certa vez, tentei pagar a condução com algumas moedas e o cobrador me devolveu a mais dourada de todas.

– Essa moeda é de 10 cents de Euro, parece com os nossos 10 centavos, mas é Euro. Guarda que ela é tua moeda da sorte.

Desde então, tenho a sorte guardada comigo.

E dentro do ônibus, fiquei observando o mundo do outro lado da janela. Vi um homem com um enorme bigode grisalho, fumando um cigarro num movimento extremamente lento, levando a guimba fumegante até os lábios, ele não estava fumando, estava beijando uma guimba de cigarro, debaixo de um sol de 31°, enchendo os pulmões com poluição e nicotina.

É o que fazem as pessoas apaixonadas, elas transcendem os pesares, se deixam ferir, ferem, se submetem às dores e humilhações, torna-se viciadas.

É só uma moeda de 10 cents de Euro.

É só uma guimba de cigarro.

Celebro o acaso

Tem quem chame de destino.
Há os que chamam de coincidência e os que fazem cálculos e dão o nome de probabilidade.
Eu prefiro chamar de acaso todos os pequenos dissabores, cada pequeno caos que por ventura há de nos unir, assim, por acaso, em qualquer momento da vida, numa esquina, num bar, na correria do metrô, por anos a fio, desenhando algo que só há de se descobrir no final, se um final existir.

Como acontece

Você me despe
E eu sinto seus dedos nos pontos mais quentes do meu corpo
Sua mão no meu cabelo inclina meu rosto, fazendo minha nuca se curvar
É assim que estremeço
Sinto um desejo subindo da ponta dos pés

me fazendo incendiar

Enquanto você me olha
E eu te olho
Foi só um olhar

– o amor numa quarta-feira ruim

O amor é um mosquito que pica sua coxa sem que você perceba. Tira seu sangue, e se manda, procurando outra coxa pra picar.

Ele deixa uma sensação ardida e irritante, que vai te fazer querer arrancar com as mãos porque é algo que você não aguenta mais sentir.

O amor…
O amor coça.

A água do céu

Foi um dia difícil.
Daqueles dias que transformam a alma em poeirinha.
E eu só queria minha casa.
Tudo tão difícil, por que tudo tem que ser tão difícil? O amor, a vida, o trabalho, o peso que se carrega nos ombros e na cintura…
E eu fui pra casa.
Caiu um temporal.
Eu que quase não ando com guarda-chuva fui banhada pela água do céu.
E essa chuva que tocou minha pele numa noite quente me fez lembrar de uma coisa, tudo pode ser muito difícil, muito pesado, mas nada seria tão bom se tudo isso não existisse. É o peso que deixa tudo mais leve? Eu acho que sim.
Enquanto minha pele ia sendo molhada pela chuva, pude sentir o cheirinho doce que exalava de mim, e eu sou assim, mesmo quando esqueço, mesmo quando tudo me faz acreditar no contrário, eu ainda sou doce, e esses momentos difíceis e amargos

vão e vêm, e eu sempre serei assim.

Você está aqui

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O que mais aperta no meu peito são as coisas que mais me irritam em você.

É a sua mania de deixar a torneira da cozinha sempre pingando, o som da gota de água batendo na pia me enlouquece e você sabe disso. É esse seu descaso declarado ao deixar a porta do meu quarto aberta sempre que você entra aqui, e essa mania chata de pegar minhas chaves sempre que você não encontra as suas, poxa, é só pendurar no mesmo lugar.

E os meus chinelos que você vive pegando, eu nunca acho meus chinelos. Nós duas calçamos 35.

Tudo isso me tira do sério. E eu respiro fundo toda vez.

Mas me dói o coração toda vez que eu penso que um dia eu não vou precisar levantar pra fechar a torneira direito, já que não vai ter nenhuma gota pingando na pia. E me dói saber que um dia eu vou fechar a porta do meu quarto e ela vai ficar fechada até eu abrir de novo. Me dói mais ainda saber que minhas chaves continuarão no mesmo lugar que eu deixar, e que meus chinelos dormirão e acordarão no pé da minha cama.

Eu acho que é isso que mais vai doer, essas manias chatas, essas coisas que só você faz, essas coisas que me tiram do sério mas que reafirmam o tempo todo que você está aqui.

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Os desenhos nas minhas coxas formam caminhos que se cruzam, caminhos que terminam pra começar de novo.
Esses desenhos me lembram que tenho um coração que já foi partido algumas vezes, um coração cheio de desenhos que ninguém vê. Os remendos.
O que carrego nas coxas que sustentam meu tronco, as coxas que balançam num movimento convicto de prazer e força, são as marcas de dias que machucaram, mas além disso elas me lembram que apesar de todos os estilhaços, ainda estou inteira. E é por isso que amo minhas marcas.

– Estrias sem vergonha

Meu mundo

As pontas dos dedos na minha nuca desenham um caminho que percorre meu pescoço, deixando um rastro quente que vai descendo, levando até meu colo onde os dedos repousam num lugar onde o coração bate acelerado, desejando cada vez mais. E minhas mãos encontram estes dedos e os abraçam como um polvo feroz faria agarrando sua presa. Te mostro outro caminho, abrindo espaço entre meus seios, descendo cada vez mais onde eu te mostro um lugar onde apenas eu moro, onde todo o desejo do mundo se encontra e pede que este lugar, este mundo seja apenas seu por alguns instantes, aqueles instantes onde eu estarei inteiramente entregue ao seu toque, e que deixarei de ser rainha pra me tornar uma súdita, nesse momento meu mundo todo está em suas mãos.

No meu peito

Eu te odeio porque você me deixa com uma sensação ardida no peito. Do início ao fim.
Meu peito ardeu quando te conheci, e ardeu ainda mais quando você eu fomos um só.
Agora arde como uma dor que queima de dentro pra fora e eu só posso dizer que te odeio, odeio por te querer tanto.

As perguntas

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Procurei no horóscopo de hoje, nos erros grotescos da previsão do tempo que não previu nada, procurei na memória sobre o sonho que tive. Nenhum sonho, não que eu lembre.
Procurei nas mensagens ignoradas… foram todas respondidas.
Procurei em algum lugar no passado que eu ainda não esqueci, algum lugar inabitável.
Tentei adivinhar o futuro em busca de algo tão ilusório quanto a previsão do tempo.
Me resta o espelho. A imagem refletida diz que há algo errado, só não me dá as respostas.
Sou um problema refletido, há algo que dói, algo que não se encaixa.
O rosto entrega o cansaço, o espelho me diz que talvez eu nunca encontre o que procuro, e mesmo assim vou procurar.
E talvez seja por isso que vasculho sonhos, vejo o horóscopo, leio mensagens, e escolho roupas depois de ver a previsão do tempo, tudo isso faz parte de dormir, acordar, viver, sentir. Mesmo que um dia, ou dois, ou cinco sejam tão ruins que me façam crer que não existem respostas, apenas perguntas e perguntas e perguntas.

Vem se for pra ser por inteiro

Se eu fosse calcular quanto tempo da vida eu posso ter passado no E Se, com certeza superaria o tempo investido em frente ao computador, pra não dizer perdido.
E é por conta dos momentos roubados pelo E Se que eu decidi tomar apenas dois caminhos, um deles se chama Sim e o outro Não.
Simplifiquei minha vida.
Essa mania de criar um mundo imaginário onde de fato nada acontece, me cansou.
E me cansei de gente E Se também.
Eu pisquei os olhos e quando vi já não tinha mais 15 anos, bati o sino aos 27 e meu querido, eu não tenho tempo a perder.
Ou você quer algo, ou você simplesmente não quer.
Pode ter levado mais tempo do que deveria, mas antes tarde do que mais tarde.
Percebi que tenho meu valor, me olho no espelho e na maioria das vezes gosto do que vejo, eu faço as pessoas rirem, e eu amo rir com as pessoas.
Me dei conta que o pouco não combina comigo, e essa mixaria de é o que temos pra hoje não combina nem um pouco com meu sorriso largo.
Se vier, vem com alma e coração, se for pra pisar em ovos então nem saía de casa.
Fica aí que lugar de gente pela metade não é do meu lado.

Flores

Hoje eu pesquisei imagens da Holanda no Google. Holanda, o país, sabe? Pois é. Lá faz bastante frio. O país das tulipas. Uma mais linda que a outra. Campos inteiros só de tulipas, de todas as cores.

Eu fecho os olhos e consigo me imaginar andando entre elas, com cautela, com amor, completamente deslumbrada pela riqueza de detalhes, desde a luz do céu até o chão coberto de flores.

Eu nunca gostei de flores envoltas em plásticos, nunca achei que fosse justo com elas. Pense nessas flores que foram cortadas, arrancadas, as flores que choram são as flores que ganhamos de presente. Como se flor fosse presente, flor é paisagem. O presente é a paisagem.

Me lembro de flores que ganhei.

Um bouquet de rosas que só pude deixar em casa e correr pro hospital, o quarto todo ficou cheirando a velório. Que tristeza aquelas rosas. E assim como as rosas, aquele amor também se foi.

Mas me lembro com mais dor no coração das pobres tulipas. Lindas e tristes.

As tulipas que mereciam um país frio num campo repleto de irmãs tulipas, foram parar justamente aqui no Brasil, em São Paulo, num vasinho solitário dentro do meu quarto. Mais uma morte certa.

Veja bem, não tenho nada contra as flores. Na verdade eu as amo. Mas as amo ali, no campo, no jardim, onde elas nascem, são tocadas pelo orvalho da manhã, pela garoa fina, onde elas enxergam as tempestades, onde suas folhas ficam bem verdinhas, onde as borboletas pousam e as abelhas sapateiam, gosto delas ali, recebendo o calor e a luz do sol, com vida, trazendo alegria pra quem as vê, pra quem as sente. Amo as flores que nascem, vivem, morrem e renascem. Por que é assim que funciona quando elas estão onde deveriam estar, o ciclo continua, é um destino muito melhor que um vaso solitário dentro de um quarto.

A gente nunca pensa nisso, mas as flores no chão são flores livres.