Perdi o ônibus, ainda bem

Numa noite depois do trabalho, só queria ir pra casa.
Fui apressada para o ponto de ônibus, farol aberto para os carros, farol fechado pra mim.
Observei o ônibus que eu deveria pegar indo embora.
E quando o ônibus passou, vi que do outro lado da rua, esperando o farol fechar, estava Nando Reis.
Farol fechado pra ele também.
Eu amo Nando Reis.
Quem não ama Nando Reis?
Tenho certeza que ele deve ter uma coleção de caderninhos em casa cheios de música e poesia, listas de compras, pensamentos soltos, rabiscos, letras completas e inacabadas, talvez até desenhos.
Naquela noite eu fiquei feliz pelo atraso, pela inconveniência do trânsito, pela partida de um ônibus que me deixaria em casa meia hora mais cedo.
Nando Reis atravessou a rua, não existe ninguém com ele. Ele é ele só, e só ele é Nando Reis. Com aquela barba ruiva, os cabelos em caracóis também ruivos, os óculos com lentes transparentes, dois fãs um par.
E eu vi que era Nando Reis , meus olhos vibraram.
Com uma ousadia que às vezes me falta, disse:
– Nando, eu posso te dar um abraço? – Ele olhou pra mim com um sorriso que eu nunca vou esquecer.
– Claro!
E eu dei o abraço, e quando você dá um abraço, você também ganha ele de volta. Eu ganhei um abraço de Nando Reis. Já com o coração pulsando de alegria, além de toda vida que corria no meu corpo, pude dizer com uma verdade que não poderia ser contida – Nando, eu te amo!
E nessa hora ele soltou uma risada bonita, divertida. Eu também estava sorrindo.

Fui esperar o próximo ônibus, e acho que essa é a única vez que me lembro tão bem de um ônibus que perdi.

Publicidade

Juntinho

Sensação estranha essa de morar num corpo
Você não acha?
É como se a alma vestisse uma roupa e andasse por aí
A gente é o que é por dentro
Por fora a gente vai passando
Com essa roupa que veste os pensamentos
Todos passageiros
Assim como você
Assim como eu
Mas a gente esquece, não esquece?
A gente esquece que nada permanece, tudo perece
E a gente anda por aí
Com o coração a mil, jurando que talvez
Jurando que nunca mais
E de repente a gente se dá conta
Que jurou e mentiu
Porque tá tudo ali de novo
Essas coisas que o coração sente
Que a cabeça pensa
Que a alma sublima
Essas coisas que o corpo esconde, mas que a gente sabe
Eu acho que é mágica
Pode ser química
Mas é mais bonito chamar de mágica
Essa coisa que brilha no olhar de gente bonita
Que quando se olha assim
Uma no olho da outra
Sem querer
Num tropeço do destino
Num descuido de quem busca sem saber buscar
Numa fração de segundos
Sente o coração parar
E aí lembra rapidinho
Que a gente é muito mais
E a gente fica bem melhor quando tá juntinho

Éramos crianças em 1998

O ano era 1998, a casa da família brasileira costumava abrigar uma televisão de tubo.
Não existia fake news, mas existia mentirada mesmo, que era contada boca a boca ou através de revistas de fofoca.
As crianças brincavam de bola na rua, andavam de bicicleta, pulavam amarelinha, compravam cigarros para os seus pais, tios e tias, e às vezes ganhavam as moedas que vinham de troco. Às vezes não ganhavam nada, cumpriam apenas o dever de criança compradora de cigarros – moço, minha tia pediu um free em maço azul – e um adulto de bigode olhava pra baixo e vendia o cigarro sem cerimônia.
Ainda lembro das notas de 1 real enroladinhas.
Os videogames já existiam, mas a gente só via na casa dos primos ricos. Tinha desenho na TV, e a gente via de um tudo. Era Banheira do Gugu, Teste de DNA no Programa do Ratinho, no SBT passava OZ de madrugada, de manhã tinha a Eliana cantando sobre dedinhos e ficava tudo bem. Que loucura esses tempos.
Foi no ano de 1998 que tivemos a Copa do Mundo. O Brasil perdeu, mas a gente se divertiu muito até chegar lá. Tinha jogador com nome de anão da Branca de Neve, tinha o Cafu que era do Jardim Irene, tinha o grande goleiro Taffarel, que no nome já era a própria muralha – ainda posso ouvir Galvão Bueno gritando “sai que é sua Taffarel”- , e tinha o melhor de todos, Zagallo.
Também me lembro que nesse ano o horário eleitoral nos apresentava umas figuras caricatas, e que muitas vezes ludibriavam crianças como meu irmão.
O grito que eu ouvia lá da cozinha, quase como um chamado pra guerra, vinha da TV de tubo:

– MEU NOME É ENÉAS!

O mesmo discurso que me dava um certo medo, fazia meu irmão, três anos mais novo, correr pra sala e gritar junto com o barbudo da direita “MEU NOME É ENÉAS”.
Eles pareciam um só. Uma fenda no tempo separava o velho do menino.
Existia um ar cômico, ninguém levava aquilo a sério, acho que até eu dava risada. Era uma criança imitando um político. Que criança entende de política? Veja no que deu Carlos Pilotto. Ele precisa urgente brincar de tazo. Do que brincam as crianças hoje em dia? Salvem Carlos Pilotto.
E como de costume, a eleição era um evento em muitos lares, assim era no meu.
A gente acompanhava os adultos eleitores, e até apertava os números na urna quando eles davam a permissão.
Era muito divertido.
No dia da votação, minha mãe levou meu irmão, que na época tinha 4 ou 5 anos. E ele foi muito animado.
Ao colocar os números na urna, apareceu outra foto que não era a mesma da imagem que ele estava acostumado a apreciar na velha televisão de tubo, mesmo assim, era a foto certa e minha mãe confirmou, TRILILI.
Isso fez meu irmão sair aos prantos, praticamente carregado pela mãe traidora da pátria do pequeno coração conservador dele. Soluçando enquanto as lágrimas escorriam em seu rosto de menino, ele berrava no meio do colégio “Eu quero Enéas, eu quero Enéas”.
Os sinais estavam todos lá.
Enéas não foi eleito naquele ano. Ele queria ser presidente.
Mais de 20 anos depois, somos nós os adultos. Eu fui pra esquerda, ele foi mais pra direita.
Lembro de Arnaldo Antunes cantando “saiba, todo mundo foi neném”.
Em 2018 quem chorou fui eu. Em 2022, vamos ver…
Domingo tá logo ali, companheiro.

Ponto zero

Acho que todo mundo tem um momento de chegar ao nada.
O nada é o ponto zero de tudo.
Esse instante que parece uma eternidade, te faz ver tudo que poderia ter sido como se fosse um filme.
Uma força sombria pode sussurrar que é tarde demais, e isso enfraquece os ossos, embaça a visão.
Esse momento do nada deixa a gente preso numa realidade paralela.
Mas existe um depois além do nada.
Há um futuro, uma nova possibilidade.
Não esqueço das palavras de um amigo, e até posso ouvir a voz dele me dizendo:
– No máximo que pode acontecer, é eu voltar começar do zero. E por mim, tudo bem.

Dias de escuridão

De vez em quando olho lá fora não vejo nada.
Não há nada além da janela, além da porta. Não há nada sob o céu, nem caminhos novos, nem paisagens, nem pessoas com quem conversar.
Em dias assim, sinto que tudo é ilusão, até o tempo e o espaço. O futuro é apenas uma promessa, e não existem promessas concretas.
Posso fechar os olhos e dizer que rezo, ou posso apenas dormir.
A Terra continuará girando em torno dela mesma e em torno do Sol.
A noite vem com escuridão, e a luz vem com o amanhecer.
Fecho os olhos, deixo a noite chegar.
Ainda existirá luz, e quando ela voltar, abrirei a janela, atravessarei a porta, encontrarei pessoas lá fora, porque tudo muda, eu mudo também.

De gostar

Gosto de ler Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade e Caio Fernando Abreu.
Gosto de ouvir Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Chico Buarque.
Também gosto do silêncio, de observar o céu e de momentos de nada.
Amo suco de laranja geladinho, melancia com gengibre e suco de tangerina.
Adoro frutos doces, manga, atemoia e uva.
Eu sonho muito e lembro dos meus sonhos na maior parte das vezes.
Gosto muito da minha solidão, mas também gosto de ficar junto.
Gosto de ir ao cinema, ver os trailers, e só sair depois dos créditos.

Latina e Revolucionária

Obra de Adriana Varejão

Tenho um quadro na minha parede que diz: Soy Latina Americana, Soy Revolucionária.
Fiquei encarando esse quadro, me senti uma farsa.
Que tipo de revolução tenho feito?
Eu queria mudar o mundo, que pretensão.
O mundo é como uma boneca russa, não é apenas um.
Um mundo dentro de um mundo, dentro de outro mundo, e dentro dele outro mundo, e segue assim infinitamente.

Eu visto uma bandeira, levanto a mão, mostro que tenho um punho. Ando de queixo erguido, visto a armadura das pessoas corajosas. No meu peito ainda sinto medo, mas eles não precisam saber.
Meu coração pulsa e me dá o ritmo de uma música. Penso na canção de Jorge Drexler, e repito mentalmente “Amar es cosa de valientes”.

O que é ser valente?
Nesse momento, é subir essa rua antiga, passar pelas calçadas, ouvir o barulho do tráfego, seguir em frente. Sentir o calor do sol, ignorar o suor que escorre pelas costas assim como qualquer olhar hostil. Hoje, ser valente é seguir em frente, apesar de tudo.
No meu bolso tenho um papel com números anotados, números que até decorei.

Não sou uma pessoa de armas. Eu luto usando minha alma, mente e coração.
Já não sou quem eu era antes, estou em transformação.
Eu sou um mundo dentro de um mundo, dentro de outro mundo, e dentro dele outro mundo, e assim sigo infinitamente.
Queria ter o tempo na mão, queria ter a resposta certa para toda pergunta.
Por enquanto, sei que sou latino-americana, sou valente, meu coração pulsa e preciso seguir em frente.
Eu sou minha própria revolução.

Nostalgia

Ninguém vive de nostalgia, eu sei. É que eu me pego pensando, principalmente em dias como esse, nos sons e nas cores, no que foi dito e no que poderia ter sido. É uma construção de um mundo paralelo, uma outra realidade que não existe, e se não existe, é apenas imaginação, armadilha da nostalgia. Que pena, ou que bom que tenha sido assim, a gente nunca sabe. E vivemos no se fosse como se a outra rota fosse a da salvação. Na minha imaginação é. Foi assim, não foi de outro jeito. E eu já nem sem dizer se o nome disso é vontade ou se posso chamar de saudade. Vou em frente, ainda levo meu meu coração.

Dor do crescimento

Parece que a vida dói devagarinho na gente
Você não acha?
Tudo é despedida, mesmo quando é chegada
Nasci e me despedi do corpo da minha mãe, tive saudade do cheiro
Todo bebê tem saudade do cheiro da mãe
Será que essa é a primeira saudade de toda pessoa que nasce?
Eu tenho saudade de ver as casas grandes, com móveis grandes, e quintais enormes Quando a gente é criança, tudo é muito grande, mesmo que não seja de verdade
Aí a gente cresce e o mundo vai ficando cada vez menor
Vai apertando a gente pelos cantos, no trânsito, no metrô, nos shows e nas filas dos banheiros
E tem hora que tudo que a gente quer é um abraço pra soltar
Pra soltar do medo, pra soltar do sufoco, pra soltar da gente e de repente sentir que a gente está no outro
É que a vida vai doendo assim devagarinho
Minha mãe dizia que eu reclamava muito quando era pequena, e ela diz que o nome daquilo era dor do crescimento
Eu acho que a gente nunca para de crescer

Essas Mulheres

Gosto de ler histórias sobre outras pessoas, principalmente sobre mulheres. Sinto que ao aprender sobre a vida delas, acabo aprendendo mais sobre mim.
Sem exceção, todas as histórias que li mostravam um desejo profundo pela liberdade, pela expressão, pela criatividade, pela autenticidade, e um amor profundo, todas tinham muito amor no coração. Camille Claudel, Yoko Ono, Marilyn Monroe, Clarice Lispector, Marília Gabriela, Etta James, Nina Simone, minha mãe… são tantas.
E ao mesmo tempo, todas essas mulheres viveram e vivem uma grande solidão.
O que acontece quando uma mulher salta as barreiras, quando ela desata os nós, por que a solidão fica tão evidente?

Quando eu tinha uns 5 anos, ganhei uma bicicleta. Era uma bicicleta Ceci da Caloi, era rosa e branca, e tinha uma cestinha. E como toda bicicleta de criança, ela veio com rodinhas. Minha rua era de paralelepípedo, então, toda vez que eu ia andar de bicicleta, sentia um desconforto com a bicicleta trepidando toda, aquelas rodinhas entortando, tornando minha experiência um tanto desagradável.
Mas as rodinhas me impediam de cair, foi o que minha mãe falou. Se você tirar as rodinhas você vai cair, você tem certeza? Eu tenho. Pode tirar.
Alguém tirou as rodinhas pra mim, pode ter sido meu pai, mas isso não importa.
O que importa é que aprendi na marra a encontrar o equilíbrio em cima daquela bicicleta, isso porque eu queria um caminho mais solto, mais livre, menos barulhento.

E eu caí. Aprendi que o paralelepípedo não é o melhor amigo dos joelhos e mãos de meninas. Tenho ainda algumas cicatrizes dessas quedas, bem pequenas, pequenas porque meu corpo também era pequeno. E eu cresci, eu ainda ando de bicicleta, eu vou por aí.
Talvez de alguma forma, a vida de uma mulher seja um pouco isso, aprender a andar de bicicleta, e em algum momento escolher, escolher quando é preciso ir mais longe, vai chegar o momento de tirar as rodinhas. E quando você for por aí, e a brisa soprar no seu rosto, não se sinta sozinha, você tem um mundo dentro de você.

Um dia de domingo, uma página de um diário

Exposição de Walter Firmo no IMS

Antes de sair de casa, passei glitter ao redor dos olhos. Vi uma moça usando glitter assim, gostei. Fiz também.

Saí.

O dia estava bonito, céu azul. Vi uma nuvem que parecia o desenho de um cérebro e depois vi uma outra que me pareceu o esqueleto de uma mão.

Não tive ninguém pra comentar isso, mas tenho certeza que se tivesse, a pessoa concordaria.

Peguei ônibus e metrô, o que eu até gosto porque me permite ouvir música sem interrupções.

Desci na Avenida Paulista e encontrei no meio do caminho meus amigos de música. Matheus usava uma camisa xadrez de cor azul, e parecia feliz, aquela felicidade que deixa a pele bonita. Matheus é bonito, e mais bonito ainda quando fala. Ganhei um abraço dele, e contei que comprei um ukulele. Ele me deu um mês pra aprender a tocar alguma coisa. Farei o possível. Ganhei um abraço.

Vi também o Chico. Hoje era dia do azul. Os olhos azuis do Chico estavam da cor do céu. Eles foram embora com os instrumentos musicais e eu fui em busca de um sorvete.

Tomei um sorvete de coco e chocolate enquanto caminhava pela Paulista. Tinha gente fazendo churrasco na calçada, achei engraçado.

Entrei no IMS e vi a exposição de fotografia do Walter Firmo, No Verbo do Silêncio A Síntese do Grito. Eu não sei, talvez seja o dia, ou a sensibilidade muitas vezes exagerada que eu tenho. Mas chorei vendo umas fotos, chorei porque achei lindas. Chorar de beleza, isso me acontece demais.

Choro de beleza. Se algo é lindo demais, me emociono, e me emociono através da água presente no meu corpo. Duas fotos eu senti com o coração, uma com dois meninos sorrindo, um deles com olhos brilhantes, olhos de criança. E outra de um senhor segurando um contrabaixo. A música, sempre há música.

Tirei fotos das fotos.

Fui para o cinema, e já sabia o que eu ia assistir, A Pior Pessoa do Mundo. Um filme norueguês que conta a história de uma mulher na casa dos 30 anos, vivendo nessa época extraordinária, a mesma época que eu, uma brasileira na casa dos 30 também estou vivendo.

Meu lugar na sala do cinema seria B6, mas a moça do caixa me deu a dica, “vá mais pra trás, a sala é pequena e a tela é inclinada”. Mudei para D6. E lá assisti o filme todo. Bonito, bonito.

A Pior Pessoa do Mundo é poesia, me deu a sensação de estar lendo um livro bom. Me deu uma vontade de encontrar esse livro pra não esquecer e reler sempre que possível. Mas era filme, vou ter que confiar na minha memória. Não vou entrar em detalhes, quero que você assista ao filme também.

Ainda mais se você for uma mulher na casa dos 30 como eu. Se for minha amiga, quero mais ainda.

Quando o filme acabou, eu chorei.

E chorei de beleza.

Chorei no caminho, ali na Paulista mesmo.

E limpei os olhos com os dedos, e quando olhei pra minha mão, meus dedos estavam brilhando por causa do glitter que passei ao redor dos olhos.

Fiquei pensando em tudo de bonito que vivi até agora, e das coisas lindas que vivi e vivo e que só terei consciência da beleza desses momentos daqui um tempo, porque ainda tem tempo, muita coisa ainda vai acontecer. E olha, foi muito estranho, mas eu senti de verdade que apesar de tudo, tá tudo bem sim.
E de algumas coisas eu já tenho certeza. Tive sorte, tenho sorte, por todos os acasos que a vida me deu, por todas as pessoas boas que encontrei e que me trouxeram mais amor, mais música, mais leveza, e até as não tão boas que me ensinaram de alguma forma a ter mais coragem.

A nova moda

Ser doce é tão fora de moda. A gente não pode ser amável. A gente não pode nem amar. Legal agora é ser blasé. O segredo é desinteressar. É isso que agora é o novo amor. Chamam quem vai no caminho contrário de pessoa emocionada. O charme é parecer uma pessoa anestesiada. Tava aqui pensando se isso não é golpe da indústria farmacêutica. A gente compra mais Zoloft, olhos marejados nunca mais. E aí quando vê tá só a música do Arnaldo Antunes, "Socorro, não estou sentindo nada". Socorro, ninguém sente mais nada! Nem quando dizem um "eu sinto muito". Eu tô fora de moda, não sou blasé. 

Nenhuma solução

Minha amiga acha que o mundo está carente de afeto.
Uma outra amiga acha que só tem maluco no mundo, e isso inclui a gente, só que somos menos malucas (segundo ela).
No bar, uma menina disse que apesar de tudo, precisamos confiar nas pessoas. Uma outra concordou, mas disse que precisamos esperar o pior sempre. Uma outra ouviu tudo e disse que queria chorar.
A menina que estava sentada na minha frente disse que o segredo é dificultar, porque todo desafio é melhor. A que estava do meu lado falou que não, e contou que a terapeuta disse que “Se você vai sofrer, dificultar pra quê? Faça o que você quer fazer!”
Eu tomei meu drink.

Preste atenção

Tem uma crônica do Caio Fernando Abreu que eu gosto muito.
Essa crônica fala de borboletas, elas começam a sair da cabeça de um homem, e a medida em que ele vai enlouquecendo, as borboletas vão ficando mais escuras.

Acontece que eu sempre vejo borboletas. Normalmente, vejo borboletas amarelas. Lindas, lindas.
Mas reparei que pouca gente vê essas borboletas por aí. Parece que as pessoas estão sempre com tanta pressa que acabam não vendo nada de bonito pelo caminho.

Me questionei, será que as pessoas não estão vendo as borboletas, ou eu que tô ficando maluca como o homem da crônica?

E o que significa ver borboletas amarelas? Deve ser algo bom, porque sempre me sinto feliz quando as vejo por aí.

Acabei falando sobre isso com um amigo. Perguntei a ele se ele achava que era loucura.
– Por que só eu vejo essas borboletas? Você também vê?
– A gente só vê aquilo que presta atenção. Tem gente que vê números em tudo, você vê borboletas.

Medo da Queda

Você já esteve no alto de um prédio, e quando olhou pra baixo sentiu um medo de congelar a espinha?

As pessoas chamam isso de medo de altura.

Se fosse medo de altura você não teria subido, você não acha?

Acho que esse frio na espinha que a gente sente quando tá lá no alto, é o medo da queda.

E cair é isso, é perder o controle. É só a gravidade agindo, o tempo passando rápido, é não saber o que tem lá no final.

Carlos, se você estiver no topo de um prédio, recue. Depois de amanhã é domingo, você sabe.

Mas para todo o resto, talvez seja bom cair.

Frio na espinha e borboletas no estômago, saiba, são sintomas do medo da queda. Você já está caindo.

Só pensando

Tenho essa mania de engolir palavras.

Às vezes eu escrevo, e quando leio, percebo a falta delas. Uma pena. Nunca tem espaço para encaixá-las de volta. Puxo uma linha, uma seta, rabisco, apago, refaço. Escrever à caneta me dá essa liberdade de errar, de esquecer, de voltar e refazer.

O mais difícil é falar.

Às vezes engulo frases inteiras. Elas ficam ali rodopiando na minha cabeça, viram letreiros em neon por trás da minha íris e vão parar ali na minha garganta. Eu nunca sei o que fazer com elas.

Sempre na direção leste

Gosto da sensação do calor na pele.

O calor do sol num dia de inverno.

O calor da mão de quem a gente gosta na nossa mão.

Calor de carinho, cuidado e proteção.

Eu gosto do sol. Nos últimos tempos só tenho visto o sol se pôr.

Não lembro quando foi a última vez que vi o sol nascer.

Quase Carnaval

Na pele do rosto me sobraram pequenos brilhos coloridos, vestígios de uma vaidade, ou de um pouco de alegria, quem sabe.

A purpurina que cobria as pálpebras se espalhou pelo rosto, fazendo meu sorriso mais arteiro. E foi quando olhei para o seu rosto e vi que você também brilhava.

Brilhava da mesma cor, no mesmo tom. E com o mesmo sorriso arteiro você disse que parecia dia de Carnaval.