Era assim desde o tempo da cordinha

Existem sensações que só aqueles que precisam, irão sentir.
Os que precisam de ônibus.
O tempo é relativo.
Esperar por 15, 20, 30 minutos pelo ônibus pode ser uma eternidade.
Às vezes você não tá a fim de papo, e é nessa hora que aparece alguém que quer muito conversar.
Os opostos se atraindo.
Acontece sempre comigo.

Certa vez, estava no ponto de ônibus com uma senhora.
Nós duas estávamos caladas.
Eu esperando o silêncio e ela esperando uma brecha, uma única brecha.
Brecha que eu dei, acidentalmente, pois carrego uma mania de infância, eu penso alto. Eu falo sozinha.
Do outro lado da rua vi um cachorro viralata que mancava. Aquilo partiu meu coração. Ele estava machucado.
Meu cérebro precisou vocalizar, soltei para o universo:
– Meu Deus, que dó!
Rapidamente a senhorinha se manifestou.
– Pois é minha filha, é muito difícil.
– Sim, da muita dó. E eu fico sem saber o que fazer.
– Olha, só Deus sabe meu esforço. Essa dor nas costas que eu tenho acaba comigo.
Eu fiquei sem reação. Foi isso, acho que ela nem viu o cachorro.
E eu tive que me compadecer de uma dor nas costas que eu nem sabia que existia.

Oportunidade.
Essas pessoas ficam no ponto de ônibus esperando uma oportunidade de diálogo.
É sempre de manhã.
Um homem apareceu do nada, segurando uma pasta por baixo do braço, agitado, emputecido. Ele tinha aqueles olhos que estão malucos por identificar qualquer vacilo seu para perguntar que horas são e ficar ali emendando um assunto no outro até que um ônibus te salve.


Eu vacilei. Não sei em que momento, mas vacilei.
Mandaram ele aplicar uma avaliação numa escola lá da rua, chegando lá, era a escola errada.
Ele ligou na secretaria e falou pra mulher conferir.
A mulher conferiu, era a escola errada mesmo.
Ele perguntou: E então, e aí? O que eu faço agora? Vou embora? Pode ir embora. E meu dia? Dia perdido, o que eu faço? É bom remarcar mesmo. Eu tô indo pra casa! – O homem parecia uma metralhadora. – Menina você tá sabendo que vai ter jogo? Argentina (Aqui ele falou num tom como se conversasse com uma criança).
Não tô sabendo não. – Como NÃO? Copa do Mundo, menina! Você sabe que tá tendo Copa do Mundo? –
Isso eu sei, só não sei qual jogo vai ter. – Tem que saber, tem que saber!
Copa do Mundo, ele disse resmungando.
Eu senti que ele me achou uma completa imbecil.
Por mim, tudo bem.

Hoje minha pressa era de ir pra casa.
O ônibus chegou. Entramos. Tranquilamente. O ônibus fechou as portas, deu partida. Em seguida freou bruscamente, abriu as portas, um homem esbaforido entrou, gritou um obrigado para o motorista, ele tinha no rosto o sorriso dos campeões.
Essa é uma sensação, que diferente das que eu contei ali em cima, é uma sensação de vitória, de cruzar uma linha de chegada e encontrar quem bate na sua mão, comemora, te dá uma garrafa de água, te presenteia com uma medalha… o motorista que parou pra você entrar quando ele simplesmente poderia ter ido embora.
Só quem anda de ônibus sabe.
E eu tô sabendo, sexta vai ter Brasil e Croácia. É Copa do Mundo!

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