Dor do crescimento

Parece que a vida dói devagarinho na gente
Você não acha?
Tudo é despedida, mesmo quando é chegada
Nasci e me despedi do corpo da minha mãe, tive saudade do cheiro
Todo bebê tem saudade do cheiro da mãe
Será que essa é a primeira saudade de toda pessoa que nasce?
Eu tenho saudade de ver as casas grandes, com móveis grandes, e quintais enormes Quando a gente é criança, tudo é muito grande, mesmo que não seja de verdade
Aí a gente cresce e o mundo vai ficando cada vez menor
Vai apertando a gente pelos cantos, no trânsito, no metrô, nos shows e nas filas dos banheiros
E tem hora que tudo que a gente quer é um abraço pra soltar
Pra soltar do medo, pra soltar do sufoco, pra soltar da gente e de repente sentir que a gente está no outro
É que a vida vai doendo assim devagarinho
Minha mãe dizia que eu reclamava muito quando era pequena, e ela diz que o nome daquilo era dor do crescimento
Eu acho que a gente nunca para de crescer

Essas Mulheres

Gosto de ler histórias sobre outras pessoas, principalmente sobre mulheres. Sinto que ao aprender sobre a vida delas, acabo aprendendo mais sobre mim.
Sem exceção, todas as histórias que li mostravam um desejo profundo pela liberdade, pela expressão, pela criatividade, pela autenticidade, e um amor profundo, todas tinham muito amor no coração. Camille Claudel, Yoko Ono, Marilyn Monroe, Clarice Lispector, Marília Gabriela, Etta James, Nina Simone, minha mãe… são tantas.
E ao mesmo tempo, todas essas mulheres viveram e vivem uma grande solidão.
O que acontece quando uma mulher salta as barreiras, quando ela desata os nós, por que a solidão fica tão evidente?

Quando eu tinha uns 5 anos, ganhei uma bicicleta. Era uma bicicleta Ceci da Caloi, era rosa e branca, e tinha uma cestinha. E como toda bicicleta de criança, ela veio com rodinhas. Minha rua era de paralelepípedo, então, toda vez que eu ia andar de bicicleta, sentia um desconforto com a bicicleta trepidando toda, aquelas rodinhas entortando, tornando minha experiência um tanto desagradável.
Mas as rodinhas me impediam de cair, foi o que minha mãe falou. Se você tirar as rodinhas você vai cair, você tem certeza? Eu tenho. Pode tirar.
Alguém tirou as rodinhas pra mim, pode ter sido meu pai, mas isso não importa.
O que importa é que aprendi na marra a encontrar o equilíbrio em cima daquela bicicleta, isso porque eu queria um caminho mais solto, mais livre, menos barulhento.

E eu caí. Aprendi que o paralelepípedo não é o melhor amigo dos joelhos e mãos de meninas. Tenho ainda algumas cicatrizes dessas quedas, bem pequenas, pequenas porque meu corpo também era pequeno. E eu cresci, eu ainda ando de bicicleta, eu vou por aí.
Talvez de alguma forma, a vida de uma mulher seja um pouco isso, aprender a andar de bicicleta, e em algum momento escolher, escolher quando é preciso ir mais longe, vai chegar o momento de tirar as rodinhas. E quando você for por aí, e a brisa soprar no seu rosto, não se sinta sozinha, você tem um mundo dentro de você.

Um dia de domingo, uma página de um diário

Exposição de Walter Firmo no IMS

Antes de sair de casa, passei glitter ao redor dos olhos. Vi uma moça usando glitter assim, gostei. Fiz também.

Saí.

O dia estava bonito, céu azul. Vi uma nuvem que parecia o desenho de um cérebro e depois vi uma outra que me pareceu o esqueleto de uma mão.

Não tive ninguém pra comentar isso, mas tenho certeza que se tivesse, a pessoa concordaria.

Peguei ônibus e metrô, o que eu até gosto porque me permite ouvir música sem interrupções.

Desci na Avenida Paulista e encontrei no meio do caminho meus amigos de música. Matheus usava uma camisa xadrez de cor azul, e parecia feliz, aquela felicidade que deixa a pele bonita. Matheus é bonito, e mais bonito ainda quando fala. Ganhei um abraço dele, e contei que comprei um ukulele. Ele me deu um mês pra aprender a tocar alguma coisa. Farei o possível. Ganhei um abraço.

Vi também o Chico. Hoje era dia do azul. Os olhos azuis do Chico estavam da cor do céu. Eles foram embora com os instrumentos musicais e eu fui em busca de um sorvete.

Tomei um sorvete de coco e chocolate enquanto caminhava pela Paulista. Tinha gente fazendo churrasco na calçada, achei engraçado.

Entrei no IMS e vi a exposição de fotografia do Walter Firmo, No Verbo do Silêncio A Síntese do Grito. Eu não sei, talvez seja o dia, ou a sensibilidade muitas vezes exagerada que eu tenho. Mas chorei vendo umas fotos, chorei porque achei lindas. Chorar de beleza, isso me acontece demais.

Choro de beleza. Se algo é lindo demais, me emociono, e me emociono através da água presente no meu corpo. Duas fotos eu senti com o coração, uma com dois meninos sorrindo, um deles com olhos brilhantes, olhos de criança. E outra de um senhor segurando um contrabaixo. A música, sempre há música.

Tirei fotos das fotos.

Fui para o cinema, e já sabia o que eu ia assistir, A Pior Pessoa do Mundo. Um filme norueguês que conta a história de uma mulher na casa dos 30 anos, vivendo nessa época extraordinária, a mesma época que eu, uma brasileira na casa dos 30 também estou vivendo.

Meu lugar na sala do cinema seria B6, mas a moça do caixa me deu a dica, “vá mais pra trás, a sala é pequena e a tela é inclinada”. Mudei para D6. E lá assisti o filme todo. Bonito, bonito.

A Pior Pessoa do Mundo é poesia, me deu a sensação de estar lendo um livro bom. Me deu uma vontade de encontrar esse livro pra não esquecer e reler sempre que possível. Mas era filme, vou ter que confiar na minha memória. Não vou entrar em detalhes, quero que você assista ao filme também.

Ainda mais se você for uma mulher na casa dos 30 como eu. Se for minha amiga, quero mais ainda.

Quando o filme acabou, eu chorei.

E chorei de beleza.

Chorei no caminho, ali na Paulista mesmo.

E limpei os olhos com os dedos, e quando olhei pra minha mão, meus dedos estavam brilhando por causa do glitter que passei ao redor dos olhos.

Fiquei pensando em tudo de bonito que vivi até agora, e das coisas lindas que vivi e vivo e que só terei consciência da beleza desses momentos daqui um tempo, porque ainda tem tempo, muita coisa ainda vai acontecer. E olha, foi muito estranho, mas eu senti de verdade que apesar de tudo, tá tudo bem sim.
E de algumas coisas eu já tenho certeza. Tive sorte, tenho sorte, por todos os acasos que a vida me deu, por todas as pessoas boas que encontrei e que me trouxeram mais amor, mais música, mais leveza, e até as não tão boas que me ensinaram de alguma forma a ter mais coragem.

A nova moda

Ser doce é tão fora de moda. A gente não pode ser amável. A gente não pode nem amar. Legal agora é ser blasé. O segredo é desinteressar. É isso que agora é o novo amor. Chamam quem vai no caminho contrário de pessoa emocionada. O charme é parecer uma pessoa anestesiada. Tava aqui pensando se isso não é golpe da indústria farmacêutica. A gente compra mais Zoloft, olhos marejados nunca mais. E aí quando vê tá só a música do Arnaldo Antunes, "Socorro, não estou sentindo nada". Socorro, ninguém sente mais nada! Nem quando dizem um "eu sinto muito". Eu tô fora de moda, não sou blasé. 

Nenhuma solução

Minha amiga acha que o mundo está carente de afeto.
Uma outra amiga acha que só tem maluco no mundo, e isso inclui a gente, só que somos menos malucas (segundo ela).
No bar, uma menina disse que apesar de tudo, precisamos confiar nas pessoas. Uma outra concordou, mas disse que precisamos esperar o pior sempre. Uma outra ouviu tudo e disse que queria chorar.
A menina que estava sentada na minha frente disse que o segredo é dificultar, porque todo desafio é melhor. A que estava do meu lado falou que não, e contou que a terapeuta disse que “Se você vai sofrer, dificultar pra quê? Faça o que você quer fazer!”
Eu tomei meu drink.

Preste atenção

Tem uma crônica do Caio Fernando Abreu que eu gosto muito.
Essa crônica fala de borboletas, elas começam a sair da cabeça de um homem, e a medida em que ele vai enlouquecendo, as borboletas vão ficando mais escuras.

Acontece que eu sempre vejo borboletas. Normalmente, vejo borboletas amarelas. Lindas, lindas.
Mas reparei que pouca gente vê essas borboletas por aí. Parece que as pessoas estão sempre com tanta pressa que acabam não vendo nada de bonito pelo caminho.

Me questionei, será que as pessoas não estão vendo as borboletas, ou eu que tô ficando maluca como o homem da crônica?

E o que significa ver borboletas amarelas? Deve ser algo bom, porque sempre me sinto feliz quando as vejo por aí.

Acabei falando sobre isso com um amigo. Perguntei a ele se ele achava que era loucura.
– Por que só eu vejo essas borboletas? Você também vê?
– A gente só vê aquilo que presta atenção. Tem gente que vê números em tudo, você vê borboletas.

Medo da Queda

Você já esteve no alto de um prédio, e quando olhou pra baixo sentiu um medo de congelar a espinha?

As pessoas chamam isso de medo de altura.

Se fosse medo de altura você não teria subido, você não acha?

Acho que esse frio na espinha que a gente sente quando tá lá no alto, é o medo da queda.

E cair é isso, é perder o controle. É só a gravidade agindo, o tempo passando rápido, é não saber o que tem lá no final.

Carlos, se você estiver no topo de um prédio, recue. Depois de amanhã é domingo, você sabe.

Mas para todo o resto, talvez seja bom cair.

Frio na espinha e borboletas no estômago, saiba, são sintomas do medo da queda. Você já está caindo.

Só pensando

Tenho essa mania de engolir palavras.

Às vezes eu escrevo, e quando leio, percebo a falta delas. Uma pena. Nunca tem espaço para encaixá-las de volta. Puxo uma linha, uma seta, rabisco, apago, refaço. Escrever à caneta me dá essa liberdade de errar, de esquecer, de voltar e refazer.

O mais difícil é falar.

Às vezes engulo frases inteiras. Elas ficam ali rodopiando na minha cabeça, viram letreiros em neon por trás da minha íris e vão parar ali na minha garganta. Eu nunca sei o que fazer com elas.

Sempre na direção leste

Gosto da sensação do calor na pele.

O calor do sol num dia de inverno.

O calor da mão de quem a gente gosta na nossa mão.

Calor de carinho, cuidado e proteção.

Eu gosto do sol. Nos últimos tempos só tenho visto o sol se pôr.

Não lembro quando foi a última vez que vi o sol nascer.

Quase Carnaval

Na pele do rosto me sobraram pequenos brilhos coloridos, vestígios de uma vaidade, ou de um pouco de alegria, quem sabe.

A purpurina que cobria as pálpebras se espalhou pelo rosto, fazendo meu sorriso mais arteiro. E foi quando olhei para o seu rosto e vi que você também brilhava.

Brilhava da mesma cor, no mesmo tom. E com o mesmo sorriso arteiro você disse que parecia dia de Carnaval.

A Chica

A Chica, minha cachorra e minha amiga anda feliz, sorri com um sorriso de cachorro. É um pouco estabanada, charmosa, cheia de energia, mesmo sendo um pouco velhinha. Há 10 anos a gente se encontrou, e ela já era grande. Talvez tivesse 1 ou 2 anos de idade. Por isso acho que a Chica já tenha uns 12 anos, mas com um coração de filhote.

Dia desses, enquanto passeava com ela, uma mulher passou ao nosso lado e franziu a testa, se curvou e latiu pra Chica. Latiu exatamente como os cachorros fazem. Eu não entendi nada. Chica não deixou barato e latiu de volta, latiu com indignação. Seguimos o nosso caminho. Chica esticou um sorriso. Esqueceu a ofensa.

E eu que não falo cachorrês só queria que além do sorriso ela me soltasse ali umas palavras em português.

O que foi que a mulher te disse, Chica? Nunca vou saber.

Você está chegando ao seu destino

Uma vez me perdi no parque quando era criança. Fui procurar um bebedouro e me perdi.
Eu nunca fui boa em me localizar e em traçar trajetos.
O estranho é que por mais que estivesse perdida, não me senti perdida.
No final acabei reencontrando minha mãe e meu irmão, esse chorou um monte achando que nunca mais ia me ver.

Depois de adulta eu ainda me perco. O chato, o chato mesmo, é saber agora quando eu estou perdida.
Parece que aí é que não me encontro, se não soubesse, me achava.

Ano II da pandemia

Tenho bocejado tanto. Sinto que minha alma quer engolir o universo inteiro.
Respiro, mas não tem sido o suficiente.
Algo dentro de mim anseia por um pouco mais de vida.
Existem limitações, tanto minhas quanto do mundo.
Eu bocejo e meus olhos se enchem d’água.
É sempre a mesma coisa.
O tédio absoluto incomoda até meus pulmões.
O incenso queima no quarto e eu sinto o cheiro de lavanda pairando no ar.
Escuto o som da chuva caindo no quintal, descendo pela calha, tamborilando no telhado.
No meu quarto deixo apenas uma luz quente acesa. Todas as luzes de cores frias, aquelas com cara de hospital, me irritam os olhos e bagunçam meus instintos.
Aqui dentro, rodeada por livros, cadernos, canetas, discos, fotografias e tudo que me é familiar, me sinto segura, acolhida, confortável, guardada, como uma fruta na gaveta.
Antes que eu soubesse, meus pulmões já sabiam, começo a bocejar.

Até mais, Gavião Carijó

Abri a janela do quarto e dei de cara com um gavião pousado no telhado do vizinho.
Ele me olhou com olhos sérios, aquele olhar dos gaviões.
Era cedo, seis hora da manhã.
Apesar do meu costumeiro mau humor matinal, fiquei feliz.
Diferente dos olhos sérios do gavião, devo ter sido transparente demais, e acabei confessando prematuramente a minha admiração.
– Você é lindo!
No mesmo instante, a ave voou e sumiu no horizonte.
Eu fiquei no mesmo lugar.

Conselhos inúteis

Me lembro de quando eu era criança, sentada no tapete da sala, brincando com peças de lego.
Imaginava que o futuro era um lugar muito distante.
Eu fazia contas, “em ano x eu vou ter tantos anos, e tudo vai ser diferente”.
Me imaginava em fases da vida, eu aos 15 numa festa bonita, aos 18 dominando o mundo, e já velhinha, eu aos 30.
Ainda me vejo sentada no chão da sala sobre o tapete escuro. Eu era uma criança, e criança não tem noção de tempo.
O fato é que a gente cresce, e enquanto a gente pensa sobre o tempo, ele vai passando, apressado, fugido.
Eu já não sento mais naquele tapete da sala, nem brinco com lego, não sou quem eu imaginei que seria quando chegasse na minha idade. O tapete não existe mais e aquela casa não é mais minha.
Dessa pressa, o que me sobrou foi um pouco de saudade, e a certeza de que tudo sempre passa, e que o tempo é sempre diferente do que a gente espera.

Para Mais Um Ano Que Acaba

O ritual de encerramento de ano é importante pra mim, mesmo que nada mude efetivamente do dia 31 para o dia 1. Mas sinto que fechei alguma coisa, ou pelo menos sinto que deixei pra trás. E deixar pra trás é importante para seguir em frente.

Nos últimos tempos eu desaprendi um monte de coisa, e pelo menos pra mim, agora as coisas têm sabor de recomeço.

Na minha retrospectiva do Spotify apareceu que meu perfil era Saudoso. E acho que não só pra música, esse ano de 2021 foi um ano cheio de saudade. Senti saudade de tanta gente, de tantos momentos. E foi até pela saudade que também fiz as pazes. Fiz as pazes comigo e com gente que eu gostei muito. Fiz isso porque entendi que era uma escolha. Tudo muda sem a gente ter controle de nada. A gente não tem controle de nada.

Uma vez eu li um post de uma menina contando que depois de muito tempo lidando com depressão, ela estava se sentindo melhor, e justamente nesse momento a amiga que dividia o apartamento com ela falou: Você está feliz, né? Há quanto tempo eu não te via ouvindo música?
E foi quando ela percebeu que por um tempão ela viveu imersa num silêncio, num sem música.

Acho que 2021 foi um ano de muitos silêncios.

Escolhi essa foto porque ilustra uma espera que eu mantive dentro de mim, e acho que foi uma sensação que muitos tiveram também. Ao mesmo tempo existia uma esperança. Algo bom vai acontecer, precisa acontecer. E coisas boas aconteceram.

Se existe algo de bom pra tirar disso tudo, talvez seja a lembrança que melhor que ter música tocando, é ter alguém pra ouvir também, é poder dançar, é poder cantar junto.
E a todos que trouxeram música pra minha vida, eu deixo meu abraço apertado, é muito bom abraçar.

E a todos que levam música para o mundo, vocês fazem mágica. Obrigada por tornar o mundo um lugar mais leve.

Não dá pra saber o que vem por aí, mas enquanto existir música aqui dentro, sempre vai ter um coração pronto pra tocar.

Que eu tenha força pra continuar a longa caminhada, que você tenha força também 🙂

Cacofonia

O som da geladeira me incomoda. É um zumbido esquisito, e às vezes ela faz um estalos que escuto aqui do meu quarto.
Tem hora que eu escuto móveis sendo arrastados. Sei que é meu vizinho, isso não me incomoda. Mas acho engraçado, porque sempre que escuto esse barulho, acabo imaginando um velho arrastando uma cadeira. Vejo meu vizinho.
Quando chega a noite, também escuto os sons quem vêm da rua.
Tem gato miando, cachorro latindo, tem vidro quebrando, tem viatura e bandido fugindo – é o que eu acho.
Já escutei mulher gritando, bebê chorando e sempre tem gente cantando “Parabéns Pra Você”.
Tem barulho de fogos, às vezes nem sei o porquê.
Tem som de portão fechando, e em algum lugar tem música tocando.
Dependendo do dia, dá pra saber que tem culto na igreja.
Sempre tem alguém que pede pizza, o motoboy gosta de gritar. Tem gente que demora pra atender. Escuto a impaciência de longe, dá pra saber pelo acento agudo no último A quando ele grita pizza pela terceira vez.
É raro, é bem raro, mas às vezes eu escuto apenas o som da geladeira estalando e zumbindo.

Turma A – Manhã

É bom ter um amigo de infância, alguém pra quem você olha e ainda vê uma criança. Ao ver a criança no outro, acho que consigo ver também a criança em mim.
Tenho um amigo assim.
De tempos em tempos a gente se fala.
Esses dias ele me perguntou se eu tenho saudades daquela época.
Pensei, procurei em todos os cantos algum vest´´ígio de saudade dentro de mim.
Não achei.
Ele me disse que tem saudade de algumas pessoas.
Isso eu não falei pra ele, mas deveria ter dito: Eu sei que não tenho saudades, porque pra mim saudade é revisitar na memória um tempo e espaço, é tentar reviver os caminhos, ouvir de novo uma voz…
De lá, me restou pouca coisa pra querer viver de novo.
Talvez, considerando meus motivos pra não ter saudade, a melhor coisa que eu posso ter tido foi sorte em ter conhecido pessoas como ele.
Não tenho saudade, mas tenho sorte.